domingo, 26 de fevereiro de 2017

Intervenção social nos agentes do esquecimento

Voltando um pouco atrás na origem da criação deste blog, existe a necessidade de voltar o foco para a problemática e motivação que levarão com que isto se tornasse a pouco e pouco num projecto. Foi aliado ao amor fraternal de quem ama o seu avô, às vivências da doença e às funções/ competências que são genericamente atribuídas aos assistentes sociais que se deveu a sua emergência.
Na altura, com a licenciatura ainda por concluir e com a partida daquele que durante meses me ocupou metade do tempo tive a necessidade de começar por evidenciar algumas questões práticas com as quais me deparei de forma a esclarecer os que se encontrassem na mesma situação.

Consolidando agora o conhecimento prático com as bases teóricas que me foram transmitidas no decurso da licenciatura, considero oportuna a abordagem à actuação do serviço social no envelhecimento e em especial junto de portadores de alzheimer e suas famílias.
O trabalho do assistente social numa resposta para idosos transcende ou pode vir a transcender muito aquilo que é categoricamente estabelecido. O assistente social é mais que papéis, burocracias, admissões e atendimentos sociais. O assistente social deverá promover a mudança, empowerment e bem estar daqueles que assiste. Talvez haja mais a fazer do que aquilo que se faz na realidade, porque as respostas raramente se encontram dentro de gabinetes de onde as necessidades reais das pessoas se encontram ausentes. É por isso que defendo e sempre defendi o trabalho de terreno que privilegie as relações com as pessoas.

Essas minhas crenças enraizadas emergiram com maior profundidade à medida que a minha experiência profissional se vai construindo. As pessoas precisam de ser ouvidas, e nós precisamos de conhecer as pessoas para ir ao encontro das suas expectativas e necessidades para assim trabalhar numa melhoria continua.
Foi por isso que na minha primeira experiência (pré) profissional no Centro Social de Mosteiros, enveredei pelo trabalho com idosos, mais propriamente para os que tinham a doença de alzheimer. Uma instituição de pequena ou média dimensão (como era o caso) permitia uma intervenção mais personalizada, tendo por isso aplicado o mini mental state examination (MMSE) e identificado aqueles que tinham mais queixas a nível mnésico para posteriormente lhes proporcionar actividades adequadas para a sua estimulação cognitiva.Outro dos pressupostos ao ter uma atitude de maior presença com estes doentes era uma maior proximidade à família para prestar apoio de retaguarda aos cuidadores.
Com a passagem pela Câmara Municipal de Moura, deparei-me com a importância dos programas na área dos idosos implementados pela rede social e pela administração local, tal como é referido por Carvalho (2014, Serviço Social Teorias e Práticas), uma vez que as iniciativas direccionadas com este público são consideradas como promotoras do envelhecimento activo e por conseguinte do seu bem estar e envolvimento social. Exemplo disso são as comemorações do mês do Idoso, passeios culturais e programas que tenham em conta o combate ao isolamento e solidão naqueles meios (Rede de afectos e Banco do tempo). Foi realmente um privilégio ter podido intervir em todos eles, quer a nível burocrático quer prático. Em todas as iniciativas, além de ter feito um trabalho de programação e preparação, acompanhei os grupos e tive oportunidade de aplicar inquéritos para perceber as necessidades desta população etária, podendo assim diagnosticar e encaminhar problemáticas para traçar formas de actuação no futuro. Dada a elevada prevalência de idosos com pouca retaguarda familiar é de salientar as iniciativas a eles destinados, particularmente da criação do Projecto da Rede de afectos que visa combater o isolamento e a solidão. De notar ainda que ao contribuir para um envelhecimento activo se está a trabalhar simultâneamente na diminuição de probabilidade de desenvolver algum tipo de demência.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um encontro solarengo

Entre o amanhecer soalheiro alentejano surgem as vozes sábias e audazes de quem possui uma maleta de conhecimentos e heranças históricas que não se podem perder no tempo. Muitos deles, engelhados pelo desgaste do passar dos anos e das agruras que a vida porventura lhes trouxe, os idosos alentejanos vivem à margem da solidão por entre ruelas quase desertas.
Pais e mães de família, estão agora sós, aqueles que em muito contribuíram para a natalidade em idade fértil e que não lhes deixou escapar a memória do eco das alegrias espalhadas nas ruas cheias de crianças. O povo alentejano foi durante muito tempo um grande criador de novas gerações, sendo por isso bastante comum as famílias acima dos cinco ou seis filhos.
Mas tudo isso foram tempos idos, que a memória agora é incapaz de resgatar, os filhos partiram para outras paragens de maior dimensão ou além fronteiras e os nossos idosos ficaram sós, de mãos dadas ao conjugue ou apenas acompanhados de solidão. Muitos deles viúvos e viúvas, outros tentando entreajudar-se mutuamente enquanto casal, vêm as ruas despidas da gente que lhes dava vida e as levou dali.
Um retrato saudosista onde impera o isolamento e a solidão, um panorama real de quando percorremos esses trilhos e ainda se ouve um "Bom dia" como quem nos quer prender por mais uns momentos e poder dizer mais alguma coisa. Foi assim que passei um dia pelas terras de Beja, Serpa e Moura.


À semelhança dos objectivos lançados por outros projectos que já abordei aqui, fui "Ao encontro de um amigo", um encontro que pode ser possível quer para voluntários ou beneficiários que se encontrem no concelho de Beja. O propósito deste encontro teve o seu foco na questão do isolamento social a que estão expostos grande parte dos idosos daquela zona geográfica. Os idosos estão sós e a Santa Casa da Misericórdia de Beja, pretende travar esse desafio.
Trata-se de um projecto direccionado para a área do envelhecimento cuja executabilidade passará por um corpo de voluntários que venham a estabelecer uma relação de proximidade com os idosos. Além do combate ao isolamento social, fomenta o bem estar físico e mental dos idosos, prestando um acompanhamento de retaguarda semanal com visitas que facilitem o acesso a serviços, retardem o declínio cognitivo e promovam momentos de lazer na comunidade.

Estando ainda na fase inicial de implementação, o projecto encontra-se na fase de recepção de inscrições quer por parte de idosos com pouca (ou sem) retaguarda familiar, bem como de voluntários motivados e disponíveis para este encontro de gerações.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sozinhos no meio da multidão

Há já algum tempo que falei sobre o isolamento social de idosos. Trata-se de uma realidade cada vez mais atroz por se ir edificando até nas cidades mais desenvolvidas da forma mais impactante. Pode até parecer contraditório, mas como é possível que uma pessoa esteja isolada em plena cidade de Lisboa? No seguimento da introdução a essa temática, falei do caso da Associação mais proximidade melhor vida. Um caso de excelência, mas que apenas direcciona a sua área de intervenção à baixa pombalina. Deveria realmente existir uma maior proximidade numa cidade que não pára para que fosse possível existir uma melhor vida!
Muitas das vezes, os rostos vem encobertos e anónimos, mas a solidão também se pode vencer através de uma chamada telefónica, para escutar que não estamos sós, para pedir ajuda, para trocar umas risadas e depois ter um novo ânimo para recomeçar. A resposta está do outro lado da linha desde 2009, chama-se Conversa Amiga e é paciente, anónima, confidencial e informativa. Trata-se de um projecto delineado e concebido pelo INATEL que tem ao dispor um corpo de voluntários disponíveis todos os dias entre as 15h e as 22h para o ouvir e/ou encaminhar para respostas adequadas a cada situação.
Ligue 808237327 ou 210027159.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ConflituosIdades

Tu bem sabes o quanto as águas têm andado agitadas por aqui, esta minha nau não se tem apoiado em terra firme há já algum tempo e a isso se deve toda esta ausência.
Uma ausência escrita mas não de alma, porque tanta saudade me acompanha e todas as memórias vão vindo cada vez mais à tona quando tudo me lembra de ti (por muito que isso jamais fosse necessário dada a inevitabilidade da coisa).
Sabes, foi tudo tão doloroso que agora possuo tamanha resiliência para poder ultrapassar acasos e desacasos a que a vida me tem submetido. Eu sempre soube que gostavas muito de mim, mas nunca imaginei que o teu amor fosse capaz de uma prova como esta.
Não há agradecimentos que bastem ao legado que me deixaste, mas sei que te dei também o melhor de mim. E que o continuo a dar, aos que passam por mim e me vão recordando ou não de ti,
Obrigada por me ajudares a delinear os trilhos do meu percurso e por me teres deixado o maior dos ensinamentos.
A gestão emocional que fazemos é fulcral, para o nosso bem estar e dos outros. E é incrível como me permites ter a compreensão de olhar para os problemas de forma empática e de concordância, ao mesmo tempo que me conferes o distanciamento caloroso para não tomar aquilo como meu.
Sabes que ao inicio era mais dificil, mas a pouco e pouco enviaste-me todas as ferramentas que necessitei. Serei sempre agradecida por isso.
Somos mais do que humanos no confronto com a sociedade, podemos transformar-mo-nos num milhão de outras coisas no caso de perdermos o rumo ao nosso auto controlo. Muito se tem perdido de valores de respeito, tolerância, compreensão entre tantos outros que vão ficando esquecidos.
Mas só se irão perder caso ninguém os resgate, e lhes devolva o verdadeiro significado para uma maior harmonia nas relações interpessoais dos ciclos por quem nos rodeamos.
E por mais que a vida ande agitada é importante parar, respirar e ouvir, sem pressas.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Um piso, um quarto, UMA VIDA

Hoje é o dia de falar da institucionalização, de um testemunho escrito e vivo e de um livro.
Hoje apresento o Piso 3, quarto 313.
Um romance agridoce de quem ama e assiste à perda das faculdades da pessoa por quem tem essa relação afectiva. Fala da família, da institucionalização e de muitos sentimentos e dúvidas.
Mas, Fernando Correia vai para além do relato vivido e desencadeado pelo alzheimer que corroí os sentidos da sua Vera. O comentador dá-nos conta da evolução da doença, fazendo pequenas viagens no tempo onde emergiam os primeiros sinais da doença à deriva sem que nada o fizesse prever, retomando posteriormente o relato da actualidade em que as peças (esses pequenos sinais) se encaixam uns nos outros.
Apresenta-nos uma Vera, que fora, mãe, esposa e mulher e que continua a sê-lo apaticamente sem que muitas das vezes tenha a consciência do que é.
Resultado de imagem para piso 3 quarto 313
O caso de Vera, que é aqui apresentado, traduz-se num ninho peculiar, pois rompe com o estigma de que o alzheimer só aparece aos detentores de iliteracia e inactividade física, social e mental.
Vera é mais um dos casos que refuta essa teoria. Sempre fora empreendedora, cheia de actividade empresarial em diversas áreas.
Apesar do seu estilo de vida activo e viajante não o fazer prever, a doença de alzheimer começava a instalar-se silenciosamente no grande amor de Fernando Correia, e este sem saber agia naturalmente como se de meros lapsos se tratassem.
A regularidade deste tipo de comportamento tornou-se cada vez mais manifesta o que desencadeou o aparecimento de outras atitudes tais como mudanças de humor e perda progressiva de memória, começaram a condicionar cada vez mais a autonomia de Vera. Esta preocupação que se estendeu em torno de todo o núcleo familiar, agravava-se à medida com que os ponteiros calcorreavam o relógio comprometendo a sua segurança.
A dedicação e esforço a conciliação dos membros da família para prestarem os melhores cuidados possíveis, foram progressivamente sendo em vão à medida que o estado de Vera deflagrava e exigia mais e mais cuidados.
A decisão da institucionalização não foi, como seria de esperar, leviana ainda que no entanto fosse a que se mostrava mais eficaz para garantir o melhor acompanhamento possível.
E é assim que Fernando começa por descrever a sua narrativa, com a angustia enfurecida por ter de se resignar à separação, pelo sentimento de impotência que o assaltou.
Mas Fernando mostra ainda mais que isso, destacando aspectos positivos da institucionalização e da instituição em causa, evidenciando ainda o forte papel das visitas de família nesta fase da doença.

Sem dúvida, um testemunho para reler.

Agradecimento especial à Editora Guerra e Paz pela atribuição do livro.


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Jovens encenam a perda de memória



A sensibilização em torno das demências tem sido feita já em vários países desde as faixas etárias mais novas, assumindo assim um papel com forte relevo quer na desmistificação dos estigmas associados à doença de alzheimer, quer na prevenção e sensibilização relativamente à mesma.

O Concurso Ciência em Cena, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, tem como missão promover a consciencialização em torno das doenças degenerativas.

No concurso, participaram alunos de diversas escolas do país, tendo os mesmos apresentado trabalhos direccionados para a sensibilização de diferentes doenças.

Foi neste enquadramento, que a Andreia, a Carina, o Tiago, a Ana, o Diogo e a Catarina se juntaram e com a ajuda de alguns professores puseram em Cena a doença de alzheimer.

Sensibilizados para a doença através de experiências familiares, agruparam-se e reflectiram numa curta metragem os aspectos essenciais deste problema.

Através da encenação de contextos e cenários típicos ao longo dos diversos estádios da doença.

Ainda que possam não vencer o concurso, serão já vencedores por se dedicarem desta causa alertando assim para a comunidade escolar sobre o retrato da doença de alzheimer e da forma como a mesma evoluí.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Passatempos enigmáticos


A mente humana pode assemelhar-se a um labirinto, está repleta de becos e troços desconhecidos que ainda têm muito para ser explorados. 
De acordo com diversas obras que já têm sido aqui apresentadas, a estimulação cerebral e a realização de operações que desenvolvam o raciocínio, são um valioso instrumento para aumentar a plasticidade cerebral que por sua vez favorece o bom desempenho cognitivo.
Desde actividades mais simples às mais complexas, existem inúmeros passatempos que permitem trabalhar diversas áreas do cérebro onde se insere a memória, a linguagem, entre outras.
A Humana Mente tem uma vasta gama de artigos direccionados para a estimulação cognitiva, tendo sido parceira do Blog no Primeiro Passatempo Flash da página do Facebook.
O passatempo realizou-se no dia 1 tendo sido finalizado assim que foi decifrado o enigma.
A proposta era simples (conforme mostra a imagem acima):
Após uma lista de correspondência de letras e números, que por sua vez formam palavras, os participantes teriam que decifrar o provérbio e posteriormente explicar o seu sentido. 
O desafio estende-se agora por aqui, deixem as vossas opiniões nos comentários!

Agradecimentos: Humana Mente