Hoje é o dia de falar da institucionalização, de um testemunho escrito e vivo e de um livro.
Hoje apresento o Piso 3, quarto 313.
Um romance agridoce de quem ama e assiste à perda das faculdades da pessoa por quem tem essa relação afectiva. Fala da família, da institucionalização e de muitos sentimentos e dúvidas.
Mas, Fernando Correia vai para além do relato vivido e desencadeado pelo alzheimer que corroí os sentidos da sua Vera. O comentador dá-nos conta da evolução da doença, fazendo pequenas viagens no tempo onde emergiam os primeiros sinais da doença à deriva sem que nada o fizesse prever, retomando posteriormente o relato da actualidade em que as peças (esses pequenos sinais) se encaixam uns nos outros.
Apresenta-nos uma Vera, que fora, mãe, esposa e mulher e que continua a sê-lo apaticamente sem que muitas das vezes tenha a consciência do que é.
O caso de Vera, que é aqui apresentado, traduz-se num ninho peculiar, pois rompe com o estigma de que o alzheimer só aparece aos detentores de iliteracia e inactividade física, social e mental.
Vera é mais um dos casos que refuta essa teoria. Sempre fora empreendedora, cheia de actividade empresarial em diversas áreas.
Apesar do seu estilo de vida activo e viajante não o fazer prever, a doença de alzheimer começava a instalar-se silenciosamente no grande amor de Fernando Correia, e este sem saber agia naturalmente como se de meros lapsos se tratassem.
A regularidade deste tipo de comportamento tornou-se cada vez mais manifesta o que desencadeou o aparecimento de outras atitudes tais como mudanças de humor e perda progressiva de memória, começaram a condicionar cada vez mais a autonomia de Vera. Esta preocupação que se estendeu em torno de todo o núcleo familiar, agravava-se à medida com que os ponteiros calcorreavam o relógio comprometendo a sua segurança.
A dedicação e esforço a conciliação dos membros da família para prestarem os melhores cuidados possíveis, foram progressivamente sendo em vão à medida que o estado de Vera deflagrava e exigia mais e mais cuidados.
A decisão da institucionalização não foi, como seria de esperar, leviana ainda que no entanto fosse a que se mostrava mais eficaz para garantir o melhor acompanhamento possível.
E é assim que Fernando começa por descrever a sua narrativa, com a angustia enfurecida por ter de se resignar à separação, pelo sentimento de impotência que o assaltou.
Mas Fernando mostra ainda mais que isso, destacando aspectos positivos da institucionalização e da instituição em causa, evidenciando ainda o forte papel das visitas de família nesta fase da doença.
Sem dúvida, um testemunho para reler.
Agradecimento especial à Editora Guerra e Paz pela atribuição do livro.
Um espaço que nasceu do amor, da troca de sentimentos e dos cuidados de uma neta (eu) ao meu avô. A prova que o amor não tem de morrer com ninguém e quando amamos alguém amamos além da morte. Temos desafios, batalhas e outras coisas na vida que nos fazem lutar, que nos magoam e ainda assim nos fazem crescer porque aprendemos com elas. Foi a minha experiência com alguém que eu amava e amo muito, que me foi deixando de reconhecer.
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