Gostava de passear pelos ermos da serra, passava horas fora de casa e no regresso trazia pedaços de tudo e de nada. Começou assim. Mas nessa altura ainda a tinha a ela, e apesar de ser o amparo dela era ela que o amparava a ele. De vez em quando bebia e irritava-se com alguma facilidade, pensámos ser devido à forte personalidade dela e a dificuldade que ele tinha em lidar com isso.
Certo dia perdeu-se num desses passeios, estava a chover e estava a demorar mais do que o normal, foi então que começámos por fazer algumas rusgas para o tentar encontrar. Depois de termos procurado sem sucesso, chegou a casa com os sapatos rotos e todo molhado.
Este foi o alarme para essa situação que já vinha a acontecer.
Por circunstâncias da vida, quis o destino que fossemos viver todos juntos.
Os passeios pela serra deixaram de existir, ainda que a zona circundante fosse de mato estávamos juntos e eles mais acompanhados. O estado dela começou a definhar e os cuidados ficaram muito centrados nela até ao seu falecimento. Mas ainda assim víamos que ele não andava bem, insistíamos continuamente que deveria ir ao médico mas ele recusava-se.
Depois de ela ter morrido, a situação como seria de esperar piorou. A ausência dela fez com que a tristeza passasse a ser a companheira dele. As perdas são sempre dolorosas e estávamos todos a fazer o luto.
Conseguimos ainda que fizesse alguns tratamentos para um aparente problema de próstata, mas as doses de medicação mostravam-se cada vez mais prejudiciais para agravar o seu declínio cognitivo.
Com o passar do tempo a situação foi-se agravando... deixou de falar nos acontecimentos diários e começou a falar frequentemente dos tempos em que trabalhava. Chegava a fazer diálogos entre os colegas que tinha na época. Começava a ficar cada vez mais agressivo e tivemos de o deter muitas vezes para que não fugisse de casa.
O estado foi-se agudizando de dia para dia, e os esquecimentos começavam também a comprometer as actividades de vida diária como a alimentação e a mobilidade. Colher a colher passámos também a auxiliá-lo cada vez mais na sua mobilização, devolvendo-lhe o colo que deu um dia aos filhos.
Até que um dia não saiu mais da cama, e ali lhe prestávamos todos os cuidados. Por vezes chegou a revoltar-se empurrando o tabuleiro. Perdeu a fala e ai já nem sabíamos o que ele nos pedia, limitava-mo-nos a seguir o nosso instinto de forma a suprir as suas necessidades.
Um dia foi o último, e mesmo já não dizendo nada disse Não te quero ver chorar, quando a lágrima caiu e me apertou a mão. Faleceu na madrugada seguinte.
Lénia Bastos.
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