Fecho os olhos... ouço esses teus murmúrios e já não és o mesmo...
Há muito tempo, há muito tempo que deixaste de lutar por ti.
E nós remamos afincadamente contra essa maré que te tenta levar para outro lugar. Um desafio que a cada dia se complica mais, que nos desgasta a cada instante.
Mas és tu! E de ti eu sei que NUNCA irei desistir. Engulo as lágrimas que tentam emergir à superfície como uma denúncia de um desgosto silenciado de quem prefere ignorar que desististe de mim.
Sei que jamais o farias, sei que não desististe, tu apenas ainda não percebeste isso.
E enquanto não te apercebes, nós vamos deambulando entre estas crises mutuas do desespero, da raiva e da angustia de nos sentirmos assim... e de não te conseguirmos fazer sentir melhor.
Entrego-te um pertence para as mãos... Passado um tempo dizes porque não te o devolvi, já não sabes mais onde o guardaste e permaneces firmemente na ideia de que nunca te o devolvi.
Por vezes sinto tudo a passar novamente como se alguém tivesse feito "replay" e ai eu que já saberia como devia reagir deparo-me com uma cena "extra" a personagem é outra.
E fez-me ver que cada caso é um caso e cada pessoa é uma pessoa por mais que os comportamentos sejam semelhantes jamais haverá pessoas com a mesma personalidade.
Depois ao mesmo tempo que começo a ouvir os gritos do desespero e tomo consciência que não sou uma super mulher dou-me conta do meu sentimento por ti e questiono-me se gostaria que me pusessem na situação em que estás com essa tua idade ainda tão cheia de jovialidade que já abandonaste.
Tu não és um velho! Sabes disso e cá para nós esse facto só vem complicar aquilo que tentamos engendrar a teu favor. És e sempre foste senhor do teu nariz, o verdadeiro pai de família que "veste as calças" e rege o destino a seguir. És o modelo, e sempre gostaste de o ser. Agora ao veres que estas a perder a tua identidade vais-te camuflando dentro dessa carapaça dura de solidão e amargura, de tristeza e de angústia.
Talvez para nós fácil seja falar. Se me perguntassem o que queria estar a fazer com 60 anos...
Diria que tencionava estar ainda a trabalhar (porque se ainda nem comecei a trabalhar aos vinte nessa altura ainda estarei longe da reforma), tenciono que estarei a ajudar os filhos e a correr de um lado para outro. Futurismos... E nessa altura queria ter-te cá, queria poder correr para cuidar dos meus pais, AOS 60 (aos meus 60) não agora! Quero cuidar sempre de ti, e quero estar sempre ao vosso lado. Só não quero é ter de me despedir agora, ainda tenho muito para vos mostrar...
Por isso espera mais um pouco, lembra-te do que já passaste como um triunfo, lembra-te que caiste muitas vezes e lembra-te de TUDO O QUE FIZESTE PARA TE VOLTAR A LEVANTAR, e depois levanta-te mais uma vez sem medo de cair (ainda que estejas preparado para isso) porque a vida é feita disso mesmo.
Nós cá estaremos sempre para ti.
Um espaço que nasceu do amor, da troca de sentimentos e dos cuidados de uma neta (eu) ao meu avô. A prova que o amor não tem de morrer com ninguém e quando amamos alguém amamos além da morte. Temos desafios, batalhas e outras coisas na vida que nos fazem lutar, que nos magoam e ainda assim nos fazem crescer porque aprendemos com elas. Foi a minha experiência com alguém que eu amava e amo muito, que me foi deixando de reconhecer.

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