É difícil começar, já passou algum tempo e todas aquelas memórias irreversíveis ainda não me abandonaram e temo que nunca me abandonem mais.
Vou fazer o resumo com a leviandade que esta mágoa me permita, para explicar o porquê de achar oportuna a criação deste blog.
Certo é que as coisas começam antes de nós sentirmos que elas existem, poderia dizê-lo que esta história começou há coisa de dois anos e meio quando perdeste a tua moleta, mas agora percebo que essa cruel doença já te acompanhava há bem mais tempo. Agora percebo que aqueles passeios solitários em que te perdias pelos trilhos da serra em que procuravas um tudo que era nada não eram simples acasos. Dói-me não ter percebido isto antes...
A idade vai sendo o pretexto para justificar tudo com a maior das naturalidades, mas não era apenas o peso das rugas que te perturbava... Chamava-se Alzheimer e apesar de nunca ter sido legitimamente reconhecido, estava lá a cavalgar firmemente para te aprisionar nessa doença que te levava a querer fugir.
Foi quando vieste para cá que me fui apercebendo da gravidade da situação e quando eu teria pôr termo a essa maldição galopante ela já estava adiantada e apesar de percorrer arduamente o caminho do seu rasto já não conseguia alcançá-la. Eu não podia fazer nada... E era isso que me amedrontava, estavas tão perto, mas ao mesmo tempo inalcançavel. Eu já não sabia onde estava o meu avô.
(...)
E foram apenas meses em que isso te consumiu, em que te vi caminhar para outro mundo a cada dia, em que aquele corpo já não dizia nada do que realmente eras.
Eu não pude evitar, mas pude melhorar algum do tempo em que viveste com essa doença.
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Ser cuidador de um doente de Alzheimer pode desencadear um leque de ânsias, frustrações e tristezas, mas cada vitória cada sorriso da pessoa a quem prestamos cuidados é a melhor recompensa do mundo.
Hoje, a onze meses depois desta perda continuo a descobrir mais sobre esta demência, continuo a interessar-me por casos como o que vivi. E já que não pude fazer mais nada resta-me transmitir o que isso me trouxe.
Um espaço que nasceu do amor, da troca de sentimentos e dos cuidados de uma neta (eu) ao meu avô. A prova que o amor não tem de morrer com ninguém e quando amamos alguém amamos além da morte. Temos desafios, batalhas e outras coisas na vida que nos fazem lutar, que nos magoam e ainda assim nos fazem crescer porque aprendemos com elas. Foi a minha experiência com alguém que eu amava e amo muito, que me foi deixando de reconhecer.
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