Lembra-se daquele ser brincalhão que lhe tecia palavras doces durante horas? Aquele familiar que tinha sempre uma história para contar daqueles tempos que nunca tinha conhecido?
Pergunta-se a si mesm@ onde ele estará, só porque a sua memória @ atraiçoou de forma tão árdua que talvez até o tenha feito esquecer de si.
Já não vê em si aquele membro da família com quem partilhava um par de horas na conversa. Já não @ reconhece.
A memória dele é agora um turbilhão em que trouxe à tona apenas os acontecimentos que o tinham marcado noutros tempos, é normal que ele fale dos trabalhos que desempenhou ao longo da vida como se os tivesse acabado de realizar e contasse o seu dia ao chegar a casa à família.
Eventualmente poderá ainda recordar-se das pessoas com quem partilhou casa, ainda que isso não aconteça em todos os casos falam dos filhos como se fossem "os meninos". Estes que agora provavelmente serão os seus cuidadores são tratados com frequente repulsa ou até indiferença, porque eles já não são meninos. São homens e mulheres que sofrem ao ver o seu ente querido ali prostrado no leito, que fazem o seu melhor todos os dias e se ressentem pelo desconhecimento a que foram entregues.
Os doentes de alzheimer por não reconhecerem os seus filhos (que desempenham em grande parte dos casos também o papel de cuidadores), rejeitam e reagem mal sempre que sejam submetidos a qualquer tipo de cuidado por parte destes familiares. Para eles são estranhos, porque os filhos continuam a ser "os meninos"...
Porém podem existir ainda mais factores que expliquem a alteração comportamental destes pacientes. Nomeadamente no caso de existir reconhecimento da perda de capacidades que vai sofrendo, poderá martirizar-se por já não ser capaz de garantir a sua autonomia. Deste modo, essa angústia poderá desenvolver sentimentos de frustração e/ou revolta, sendo por isso natural que por exemplo na administração de alimento este a empurre para fora da mesa.
Um espaço que nasceu do amor, da troca de sentimentos e dos cuidados de uma neta (eu) ao meu avô. A prova que o amor não tem de morrer com ninguém e quando amamos alguém amamos além da morte. Temos desafios, batalhas e outras coisas na vida que nos fazem lutar, que nos magoam e ainda assim nos fazem crescer porque aprendemos com elas. Foi a minha experiência com alguém que eu amava e amo muito, que me foi deixando de reconhecer.
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